Livro de Zdenek Hampl será lançado na Livraria Cultura
A dança como um modo de estar no mundo e compartilhar sensibilidades. Assim nos é apresentada por Zdenek Hampl a arte do movimento, em um livro imagético e bem humorado: Constante Movimento. Uma forma pulsante de pensamento, com histórias de uma vida dedicada à dança com integridade e ousadia.
O lançamento do livro acontece na quinta-feira, 11 de setembro, na Livraria Cultura, reforçando o catálogo de publicações em dança no País, com uma obra peculiar e instigante acerca do fazer artístico. Um relato do coreógrafo e bailarino tcheco, Zdenek Hampl, que a partir da década de 70 instalou-se no Brasil, com reconhecida produção artística no cenário nacional.
"Ler palavras de Zdenek nos faz entender a dança como uma manifestação superior, comunicação sensorial e a sublime celebração da arte. Este livro é um legado para aqueles que por presente do destino o conheceram e para muitos que sem este privilégio poderão conhecer um pouco de um bailarino que dançou a vida, um coreógrafo que desenhou a arte do movimento", afirma Luiz Mendonça, coreógrafo e professor da Universidade Federal Fluminense.
Constante Movimento foi escrito à mão, no ano 2005. Nele, Zdenek divide sua experiência no mundo da dança e sua experiência de vida através da dança. De forma irônica e livre, como foi sua produção artística, Zdenek nos conta (pois escreve como quem fala) seu olhar para um mundo sempre em movimento. Relata o impulso da sua criação artística, longe da intenção de elaborar um método. Tece críticas sobre o cenário da dança no Brasil, sobre a dificuldade de comunicação com um público educado pela mídia televisiva e nos brinda com deliciosas situações de dança.
"Se a gente vive com e para a dança não tem mais jeito. Só pensa naquilo, fica observando, comparando, e temos que aproveitar tudo e acrescentar sempre, justamente porque o diploma não diz que é o final, mas apenas um começo", relata Zdenek, que foi formado pelo curso de artes cênicas da Universidade de Praga.
Enxergar o mundo através do movimento tem uma forma singular de se estruturar e de se mostrar. Assim, com humor, Zdenek subverte as compreensões comuns da dança ao encará-las de frente não como uma teoria idealizada, mas como uma reflexão sobre sua própria vida.
"Aqui as pessoas são elas mesmas, por isso andam ou sentem do seu jeito, os gestos são naturais porque são deles mesmos, e ninguém parece estar fingindo, e nem teriam por quê. Daí esta exuberância de movimentos charmosos", disse o autor, em sua análise sobre a forma de se movimentar do brasileiro, ao contar o episódio em que decidiu morar no Brasil.
Esta publicação foi viabilizada por meio do financiamento do Fundo de Cultura de Pernambuco (Funcultura) e produzida a muitas mãos por amigos e familiares de Zdenek Hampl, através da editora Associação Reviva e da produtora Valéria Vicente, no ano que se seguiu ao seu falecimento. O título da obra foi escolhido por essa equipe, em uma referência a um trecho do próprio livro. Toda concepção foi voltada para dar proeminência à voz, à experiência e à criação desse grande artista, respeitando seus desejos.
No livro, Zdenek deixa claro que não quer correções em sua escrita. Por isso, a revisão feita por Adriana Falcão, amiga próxima do artista, buscou apenas dar coerência ao registro. Transgrediu-se as normas do livro como referência, à forma como Zdenek transgrediu os limites da dança de sua época. Sua escrita foi protagonista neste projeto, que inicia com suas palavras estampadas na própria capa.
Biografia - Nascido em 1946, na cidade de Brno, na atual Republica Tcehca, Zdenek Hampl chegou ao Brasil em 1970, como primeiro solista da companhia de dança Lanterna Mágica, dirigida por Alfred Radok, pioneira na forma como utilizava a relação vídeo-cenografia e coreografia. Antes, havia obtido formação de oito anos no curso de artes cênicas da Universidade de Praga e atuado como solista do Teatro Nacional de Praga, na República Tcheca.
Ao desistir de voltar para Praga, não assistiu pessoalmente à desestruturação da companhia pelo Regime ditatorial instalado naquele país. Assim, aos 24 anos, passou a contribuir na produção de dança brasileira.
Residindo no Rio de Janeiro, coreografou e foi assistente de direção da peça Calabar (1972), de Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, proibida de estrear pela ditadura militar; atuou no corpo de baile da Tv Globo e coreografou para o Sítio do Pica-pau Amarelo (1976), a novela Baila comigo(1981) e diversos clipes musicais do Fantástico. Lecionou no NAC - Núcleo de Artes Criativas e na Academia de Dança do Horto, espaços de convergência dos artistas da cidade, e atuou como coreógrafo em diversos espetáculos de dança e teatro. Assim, ajudou Carlota Portela a fundar a companhia de dança Vacilou, dançou, co-coreografando o espetáculo que deu origem ao grupo.
Dotado de grande sensibilidade musical, não apenas criou trilhas para seus trabalhos e de outros artistas, como desenvolveu uma forma de sapateado baseado numa leitura rítmica peculiar. Assim, em 1977, foi considerado pelo Jornal O Globo "o mais importante professor de sapateado em atuação no Brasil", sem nunca ter tido uma aula específica dessa técnica.
Em 1982, mudou-se para Recife onde atuou como professor e coreógrafo, mantendo diálogo com produções no Sudeste do país. Por sua atuação em Recife foi considerado pelo Diário de Pernambuco (1994), o "coreógrafo que mudou o conceito de dança contemporânea em Pernambuco". Lá, dirigiu e coreografou O Capataz de Salema (1982), Piazzolada - Fuga y mistério (1983), É o Dia(1983), À Toda Prova(1984), Quadros Vivos (1986), Peles da Lua (1988) e A Festa da Pedra(1989), este último um diálogo com as obras do artista plástico Francisco Brennand, criado e encenado no ateliê do artista.
Lecionou e coordenou o curso de extensão de dança da UNICAP (1983). Deparou-se com as barreiras sociais impostas aos artistas e se negou a compactuar com elas. Preocupado com a precariedade do cenário da dança local, ajudou a fundar e dirigir a Associação de Dança do Recife (1984), que tinha como objetivo profissionalizar o trabalho do artista da dança. Sua atuação extrapolou o âmbito da dança, desempenhando atividades em outros domínios artísticos, como músico, artista plástico e ator. Em 2006 foi homenageado pelo Festival de Dança do Recife, para o qual coreografou Sintonia, seu último trabalho.
Serviço
Lançamento do livro Constante Movimento
Data: 11 de setembro de 2008 (quinta-feira)
Hora: 19h
Local: Livraria Cultura
Endereço: Rua Madre de Deus, 271 - Recife Antigo
Preço do Livro: 20,00
veja fotos de espetáculos de zdenek na Exposição virtual
e no Acervo Recordança